Os treinamentos com o general haviam retornado, todos os dias acordava as aproximadamente as 10 da manha para comer com o anfitrião, batalhavam até a hora do almoço e a tarde voltavam ao treino. Ela estava ficando muito boa, foi o primeiro anjo a cansar Susej e, com ela, ele usou sua força total pela primeira vez desde a ultima batalha contra o seu irmão.
Aquele seria o seu dia de folga então dormia tranquilamente. Flin estava em seu ápice quando o sinal tocou. Sinos entoavam em todos os cantos do forte. O sino da batalha que tanto ansiava. Correu, para junto da multidão, mas no meio do trajéto Susej a barrou e puxou para uma sala vazia.
- Yudara nós não temos muito tempo, entre tanto eu preciso lhe entregar algo antes da batalha. - Parando um pouco de falar retirou sua espada da bainha e a entregou, enquanto os olhos da anjo brilhavam ele acabava de tirar a bainha para lhe entregar também - Pense nisso como um presente para a minha melhor pupila - e lhe dando um beijo na testa ameaçou se retirar, porém não se mexeu pensando no que devia falar, por fim decidiu - Você quebrou a promessa que me fez de nunca mais se encontrar com um demônio sem ser em minha presença, mas eu te perdoo. Tome cuidado e tente se perdoar depois de descobrir o porque de eu ter te feito jurar aquilo.
Com os olhos lacrimejantes ele se retirou deixando a confusa, porém essa confusão se desfez ao ouvir novamente o ribombar dos sinos. O exercito partia.
Ela correu para acompanhá-los e conseguiu ficar em um lugar perto da linha de frente, onde podia ver o seu comandante.
Como em câmera lenta o general voou na frente gritando palavras de conforto e de coragem, Yudara cada vez se sentia mais vibrante, mas animada. Os gritos pararam, todos avançavam e ela com eles. Os anjos ao seu lado caiam, mas ela prosseguia. Matar a deixava extasiada, era refrescante, viciante. Ela abriu um circulo de demônios ao seu redor e os matava rapidamente. Em um dado momento existiam dois círculos no exercito inimigo, um dos centros era Susej outro Yudara, o resto dos anjos faziam uma linha de encontro com os demônios. Ela lutava bravamente, seu corpo pingava a sangue vermelho, humano, e um sangue verde, demoníaco. Como era boa aquela sensação, mas a luta que já se desenrolava em câmera lenta parou para Yudara. Aizon estava na sua frente, um passo a frente dos monstros que a cercavam, com pose de combate. Ele ergueu sua coluna ao vê-la abaixar sua arma, ele se aproximou dela e a abraçou. Seus corpos suados e ensanguentados se grudavam, uma caricia amorosa dentre os mortos.
Com suas unhas afiadas o demônio arranhou levemente o pescoço da anjo e a beijou, o ultimo beijo da existência da garota. Com um movimento rápido decepou o braço direito dela e fincou sua espada no meio de seu peito. E antes que o corpo dela caísse ao chão ele a deixou entregue aos seus companheiros, mas antes que eles atacassem alguém os interrompeu. Era Susej, ele lutava com toda a sua fúria, mas eles eram muitos e o cheiro da anjo havia se intensificado, queriam come-la, estupra-la. O braço decepado da garota havia sido levado pelo amante a propósito de virar o seu saboroso lanche. Ela não era a primeira que ele havia traído, mas fora a melhor, a única que ele não devorou por inteiro. Não aguentaria vê-la implorar por sua vida, vê-la dizer que ele a traiu. As outras ele apenas arranjava um jeito de atrair para um canto quieto e matar. Depois de morta ele as estuprava e as comia, mas Yudara foi diferente. Com ela ele conversou, com ela ele fez amor pela primeira vez, ela roubou o seu coração com seu jeito líbinoso porém infantil.
Enquanto o demônio se afastava ela estava caída no chão da batalha, chorando, enquanto Susej lutava em seu lugar. Mas o número desigual conseguia feri-lo, ele estava fraco e numa ultima tentativa de salvá-la deitou o seu corpo sobre o dela e desmaiou. Os seres nojentos arrancavam as penas do general, seus cabelos e suas vestes. Por horas isso continuou até que os demônios se cansaram de humilhar o exercito angélico e se retiraram.
Semanas se passaram até que Yudara acordasse. Quando ela acordou a primeira coisa que ela fez foi olhar seu braço amputado, ou deveria dizer o que um dia fora o seu braço, pois ali apenas se via o seu ombro e uma faixa cobrindo o lugar onde deveria começar o seu braço. A eterna lembrança de seu coração partido, de sua traição para com Susej.
- Susej, cadê ele? - ela exclamou ao lembrar do anjo que suicidamente a salvara. Tentou levantar mas um anjo forte a impediu, ela não dava mais choques. O anjo desconhecido a segurava na maca, mas ela foi mais forte, mesmo debilitada, e se desvencilhou dele.
Seus olhos deviam estar pegando fogo, pois ele, ao encara-los, lhe abriu espaço. Ela andou cambaleante até os aposentos de Susej, ele estava deitado ainda inconsciente. Um anjo estava com ele, não era preciso perguntar para saber que todos sabiam que era culpa dela o general estar naquele estado. O anjo médico saiu do recinto deixando-os a sós.
Ela se sentou na cama vendo aquelas feridas horríveis cobertas por faixas húmidas de sangue e remédio, seus dedos penteavam os cabelos dourados do seu salvador enquanto sua mente vagava penas oceanos de culpa que inundavam sua alma.
Flin se levantava e se punha, mas a anjo não saia do lado do seu salvador. Até a noite em que Amber apareceu sozinha nos céus, seu brilho encheu o aposento e a garota, que mesmo morrendo de fome de carne não saia do lugar, começou a sentir um arrepio em sua coluna, uma dor entre suas asas. Pareciam brasas lambendo sua pele, mas assim como a dor veio ela passou. Porém as pontas dos seus dedos formigavam e clamavam por tocar as feridas do anjo e assim o fez. Primeiramente tirou as bandagens e então ferida por ferida ela tocou, e uma por uma desapareceu do corpo do anjo. Mas havia um preço, assim como tudo na vida da garota, as feridas apareciam nela. Uma por uma ela curou, mesmo hesitando nas primeiras ao ver o que acontecia com seu corpo, porém ela não podia curar as feridas do braço direito dele, pois ela não possuía mais esse membro.
Quando Flin dominou os céus na manha seguinte e os médicos vieram visitar o paciente encontraram algo inusitado, a garota estava desmaiada sobre a cama de Susej toda ferida e sangrando, enquanto o general repousava tranquilamente sem muitas feridas. Eles a depositaram em um sofá no mesmo aposento e sem muito cuidado cuidaram da maioria de suas feridas até perceberem o que havia se passado, entre tanto eles apenas perceberam, mas não chegaram a entender o porquê daquilo ter acontecido. Como poderia alguém roubar as feridas alheias?
Mas antes que continuassem com o questionário ela acordou, ainda mais dolorida do que antes. Sem dar explicações voltou-se ara a cama do general e ali se abrigou novamente a acariciar as mechas que caiam no travesseiro.
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